Rompendo lama com botas de borracha, chegou à Casa de Força, abasteceu o motor diesel e inspecionou correias e balatas. Deu a partida e acompanhou a subida dos ponteiros dos amperímetros. Ligou os transmissores de radiofarol e os de telegrafia, indo a seguir para a Estação-Rádio, onde fez o primeiro dos dez boletins meteorológicos diários. Ligou os receptores e recebeu a resenha do tempo pelo morde e a mensagem de estimada de pouso de um avião C-47 do Correio Aéreo Nacional (CAN). Preparou carga e abastecimento e aguardou a aproximação da aeronave. Instruiu-a ao pouso, fornecendo direção e velocidade do vento, pressão barométrica e temperatura ambiente. Comunicou o pouso ao Centro de Controle de Área e foi para o pátio, onde descarregou a carga destinada a aquela escala e carregou a que deveria seguir destino, abasteceu a “Garça” e forneceu à tripulação as informações das condições de tempo da próxima etapa de voo. Orientou a decolagem e acompanhou a missão pelo rádio até o pouso seguinte. Às 18 horas desligou todos os equipamentos e fechou o dia com passadas escorregadias nos 6 km de lama da estrada, de retorno à pequena povoação, no interior da Amazônia, similar a tantas onde existisse uma Estação de Aerovias (ACS).

Leone SBTF 1973

Este era o personagem principal de sustentação da Proteção ao Voo, proporcionada pela então Diretoria de Rotas Aéreas (DR), instituída em 1942 para gerir o CAN e coordenar o tráfego aéreo em geral no território nacional. Símbolo do apoio a qualquer avião nas rotas do interior, o Radiotelegrafista era “pau-prá-toda-obra”. Polivalente, atendia às necessidades de improvisação requeridas pelas dificuldades da época, nos confins do Brasil, onde a aviação insistia no pioneirismo.

Outras especializações compunham a Proteção ao Voo da DR, mas, ficavam comumente centradas nos aeroportos de maior movimento, das capitais e grandes cidades do País. No interior amazônico, quase tudo dependia do Radiotelegrafista e, por isso, a imagem da DR espalhava-se por meio dele.

Leone SBUA 1975

Sua formação profissional, a princípio na Escola Técnica de Aviação e na Ponta do Galeão (1941) e, posteriormente, na Escola de Especialistas de Aeronáutica, em Guaratinguetá/SP (1951), consistia de embasamento intelectual, moral e cívico, conhecimentos básicos de matemática, português, inglês, desenho e tecnologia básica, completando-se com disciplinas instrumentalizadoras: eletricidade, eletrônica, motores e geradores, equipamentos de comunicações e de navegação, meteorologia, tráfego aéreo, datilografia, conhecimentos de aviação, e transmissão e recepção de Morse à cadência de 20 palavras por minuto, velocidade mínima exigida para se trabalhar na rede de comunicações. Os dois anos de curso intensivo não eram suficientes para atender a gama de atividades que encontraria nos Destacamentos do interior da Amazônia: apoiar as inúmeras Missões de Misericórdia do SAR, realizadas pelos aviões da FAB, os Projetos RADAN e RONDON, abastecer aviões, providenciar transporte, alimentação e acomodações para pernoite das tripulações do CAN, atuar como agente do governo junto a índios, comunidades ribeirinhas, missões religiosas e mesmo estrangeiros a trabalho, e, até mesmo, participar de missões de busca e resgate de aviões perdidos.

Então: Radar! Surgiu o “monstro” de um só grande olho, escondido em salas escuras, preparando-se para transformar a Proteção ao Voo em sistema de alta tecnologia, proporcionando vertiginoso desenvolvimento ao setor: telex, banda unilateral, computadores, transmissão em micro-ondas e por satélites.

Leone SBEG 1976

A nova Diretoria de Eletrônica e Proteção ao Voo (DEPV) chegou para substituir a antiga DR e seus símbolos. A sofisticada tecnologia do voo supersônico exigia a evolução da infraestrutura de apoio: surgiu o Sistema de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo. Instalou-se às margens do lago Paranoá, em Brasília, prometendo novos tempos... tempos de informática! Gerou prole em Curitiba e Recife e se propõe a estender seus tentáculos até as fronteiras do norte e para lá das ilhas oceânicas. É o progresso! Bancos de dados e “scopes” fluorescentes: ambiente propício à arrancada revolucionária da tecnologia, vitórias e promessas na projeção do futuro.

Surge um novo personagem principal, que simboliza a nova DEPV, o Controlador de Tráfego Aéreo-Radar que, no binômio “tela-operador”, compõe o cenário atual representativo da Proteção ao Voo, evoluído às últimas gerações de microprocessadores. Controla e orienta todos os passos do voo: do táxi e decolagem ao voo em rota, descida e pouso; informa direto ao piloto previsões meteorológicas, elaboradas a partir de fotos-satélite, a operacionalidade de sistemas, auxílios à navegação e aeródromos; diminui os mínimos operacionais para segurança dos voos e garante maior confiabilidade ao voo por instrumentos. Por isto, tornou-se o elemento essencial na consecução da Segurança de Voo, através do Controle do Tráfego Aéreo-Radar.
E o 
Radiotelegrafista, participante de toda essa transformação processada a bem da melhoria da Proteção ao Voo, rende ao Controlador de Tráfego Aéreo-Radar a posição de principal agente do sistema, com A CERTEZA DO DEVER CUMPRIDO, ensejando que continue, nesta nova etapa, o importante trabalho de prover a Segurança de Voo do Espaço Aéreo Brasileiro!

Leone SBTF 1974

OBS.: Este artigo foi publicado no jornal “O Balão”, de 28/07/1992, à pág. 7, publicação que o CECOMSAER editava à época, com revisão e inserção de imagens autorizadas pelo autor. Hoje, com a implantação do Projeto CNS/ATM, que prevê navegação, vigilância e comunicação por dados e via satélites, o texto poderia ser reescrito pelos Controladores de Tráfego Aéreo ao passarem o bastão aos novos “Air Traffic Management (ATM)” encastelados no Centro de Gerenciamento de Navegação Aérea (CGNA), principal expressão operacional do atual DECEA, que substituiu a DEPV.

Newton Marcos Leone Porto

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Sobre o AutorNewton Marcos LEONE PORTO é professor do Curso de Ciências Aeronáuticas da Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Formado Sargento Radiotelegrafista (QRT TE) da FAB, pela Escola de Especialistas da Aeronáutica, em julho de 1972, iniciou sua carreira servindo na Amazônia, onde participou da construção do aeródromo de Tefé. Passou para a Reserva da Aeronáutica, em 1997, como Suboficial. Graduado em Pedagogia pela Universidade Católica de Goiás, em 1987, e titulado Mestre em História pela Universidade Federal de Goiás, em 2004. Publicou as obras “BUNEL – uma tragédia amazônica – Ed. UBE, 1982” e “História do Transporte Aéreo no Centro-Oeste Brasileiro – Ed. da UCG, 2005”.